segunda-feira, 17 de março de 2014

Violência obstétrica

Quando estava na faculdade, fiz uma série de reportagens sobre violência doméstica no Uruguai. Conversei com vítimas, especialistas e na época fiquei bastante impressionada. Não por ouvir relatos das brigas e conhecer mulheres cujas marcas ainda estão presentes e vívidas em um olho roxo ou braço quebrado. O que mais me impressionou foram as marcas psicológicas, dessas difíceis de perceber a primeira vista. Estigmas que não somem com compressas, gesso ou remédio. Sofrimento que, às vezes, perdura por toda uma vida e pode acometer qualquer um, independentemente da classe social ou do nível intelectual. 

Mas por que eu estou falando disso? 

Hoje pela manhã me deparei com o  projeto 1:4 Retratos da Violência Obstétrica da fotógrafa Carla Raiter, que coleta histórias e registra imagens de mulheres que foram vítimas antes, durante ou após o parto. 

Eu sempre evitei falar sobre isso, pois eu nunca aceitei que fui vítima de violência obstétrica. Como eu, jornalista, informada, poderia ter passado por isso? Aí, olhando as fotos da galeria do projeto, me deparo com um relato que poderia facilmente ser o meu:



Eu não queria fazer a cesária no parto da Amelie. Mas tive diabetes. E minha placenta ficou em grau 3 com 31 semanas de gestação. E o médico, "graças a Deus", me disse que eu não poderia entrar em trabalho de parto ou então minha pequena morreria. Tínhamos que marcar o parto o quanto antes!!!!! Durante a cesária ele teve a cara de pau de me falar que ela estava super encaixada e que, talvez, eu entrasse em trabalho de parto já na próxima semana. 

O que ele não me falou era do risco dela ficar na UTI Neonatal - como Amelie ficou, durante 7 dias. E quando eu questionei ele sobre isso ele simplesmente disse: "Ah, eu não te falei do risco? Mas é um risco muito pequeno se comparado ao que ela poderia sofrer caso você entrasse em trabalho de parto."

Na hora eu me senti enganada. Uma idiota. Mas naquele momento minha preocupação era a pequena, que estava longe de mim, cheia de fios, com sonda e em meio à inúmeros barulhos da UTI. 

Demorou mais de um ano para eu começar a perceber que talvez o médico tenha se aproveitado da minha fragilidade momentânea para me "vender" a ideia de maior segurança da cesárea. Mãe de primeira viagem, eu achava de que havia escolhido um bom médico, confiava em todo o conhecimento técnico que ele possuía. Então, por que não acreditar nas informações que ele estava me passando??

Agora, quando fiquei grávida, acabei procurando ele para a primeira consulta. Respirei fundo e falei sobre minha vontade em fazer um parto normal dessa vez. Ele, em toda sua calma, me disse que não tinha mais disponibilidade (você sabe o que é isso, né?) de fazer partos normais. Pegou o calendário e me disse a data do parto - assim eu já podia aprontar tudo com bastante antecedência. Saí do consultório consumida por um ódio mortal. Juro. A ferida invisível voltou a arder e eu jurei que não queria ser tratada daquela maneira. E saí em busca de um novo médico.

Eu realmente acho que eu o encontrei dessa vez. Concorda com meu ponto de vista e, embora eu saiba que minhas possibilidades de ter um parto normal numa gravidez gemelar seja muito mais difícil, ele já me acalmou: se os bebês estiverem bem, entro em trabalho de parto. E só depois, se precisar, seguiremos para a cesárea. 


Embora eu ainda me sinta uma idiota por ter permitido uma violência dessas contra mim e contra minha filha, eu acho que consegui tirar uma lição importante e gostaria de passar para todas as mulheres que passam por aqui e correm o risco de viver tudo isso: questione. Muitas vezes. procure outras pacientes. Fale com o máximo de pessoas que conseguir. Ouça relatos. FALE quando algo te incomodar. E só continue com o médico caso esteja realmente segura com ele - mesmo se sua opção for por uma cesárea eletiva. Porque amigas, uma cicatriz na base da barriga não é nada perto da marca que eu trago no coração. 

4 comentários:

  1. Isis, você assistiu o filme "o renascimento do parto" ? Parece que vai ter na saraiva para comprar e é imperdível. Precisamos assistir para saber os nossos direitos, nos preparar para o parto e saber também o que é ou não necessários tanto no parto normal quanto numa cesária NECESSÁRIA.
    Eu estou me preparando para o meu segundo parto também, mas agora de olhos bem abertos.
    #tamojunto
    http://www.despertardoparto.com.br/
    http://www.orenascimentodoparto.com.br/

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    1. É incrível como estamos tão vulneráveis. O meu primeiro parto foi normal, o segundo precisou ser cesária com urgência e agora para este estou me programando para que no dia em que está marcado de nascer eu faça muitos exercícios para entrar logo em trabalho de parto e não ter a opção cesária, é o único jeito que vejo e não ser enrolada. Dureza!

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