quarta-feira, 26 de março de 2014

Sobre a nova escola da Amelie

Quem acompanha o blog sabe que eu enfrentei alguns problemas na antiga escola da Amelie. Não concordava com muita coisa e não conseguia encontrar espaço para dialogar com a administração do colégio. Então, no final do ano passado começamos a procura insana por uma escola que pudesse atender às nossas expectativas e não exigissem um rim por mês.

Não sei se foi o destino ou sorte da grande, mas nós conseguimos uma vaga numa escola onde meu marido é professor. Na primeira reunião eu quase chorei de emoção ao ver o material informativo:os valores institucionais são bem parecidos com o que a gente acredita que possam contribuir para o desenvolvimento da pequena, além de um cardápio incrível e um ambiente simples, porém acolhedor. 

Meu único receio era a adaptação. Na primeira escola, Amelie chorou por mais de um mês na entrada. E eu tinha problemas dia sim-dia não para convencê-la de que era preciso levantar  para estudar. Este ano a pequena teria de acordar bem mais cedo e teria um dia puxado.

Mas ela não chorou uma vez sequer. Reclamava da saudade dos amigos, dizendo que queria visitá-los. Isso durou uma semana. Depois, ela já começou a falar que adoraria que os amigos "velhos" fossem para a escola nova dela. Até que, num sábado, tive de aguentar o chororô matinal porque não era dia de aula. BINGO! Adaptação completa.

Mas aí meus queridos, ela ficou a vontade demais. E a professora já me chamou na escola para falar que a Amelie não tem feito as atividades de sala por conversar demais. Nessa, ela puxou a mamãe aqui.

Aí, toca  ter uma conversa séria com a pequena e explicar a necessidade e a importância da escola na vidinha dela. Pronto. Já tá ficando uma mocinha! 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Violência obstétrica

Quando estava na faculdade, fiz uma série de reportagens sobre violência doméstica no Uruguai. Conversei com vítimas, especialistas e na época fiquei bastante impressionada. Não por ouvir relatos das brigas e conhecer mulheres cujas marcas ainda estão presentes e vívidas em um olho roxo ou braço quebrado. O que mais me impressionou foram as marcas psicológicas, dessas difíceis de perceber a primeira vista. Estigmas que não somem com compressas, gesso ou remédio. Sofrimento que, às vezes, perdura por toda uma vida e pode acometer qualquer um, independentemente da classe social ou do nível intelectual. 

Mas por que eu estou falando disso? 

Hoje pela manhã me deparei com o  projeto 1:4 Retratos da Violência Obstétrica da fotógrafa Carla Raiter, que coleta histórias e registra imagens de mulheres que foram vítimas antes, durante ou após o parto. 

Eu sempre evitei falar sobre isso, pois eu nunca aceitei que fui vítima de violência obstétrica. Como eu, jornalista, informada, poderia ter passado por isso? Aí, olhando as fotos da galeria do projeto, me deparo com um relato que poderia facilmente ser o meu:



Eu não queria fazer a cesária no parto da Amelie. Mas tive diabetes. E minha placenta ficou em grau 3 com 31 semanas de gestação. E o médico, "graças a Deus", me disse que eu não poderia entrar em trabalho de parto ou então minha pequena morreria. Tínhamos que marcar o parto o quanto antes!!!!! Durante a cesária ele teve a cara de pau de me falar que ela estava super encaixada e que, talvez, eu entrasse em trabalho de parto já na próxima semana. 

O que ele não me falou era do risco dela ficar na UTI Neonatal - como Amelie ficou, durante 7 dias. E quando eu questionei ele sobre isso ele simplesmente disse: "Ah, eu não te falei do risco? Mas é um risco muito pequeno se comparado ao que ela poderia sofrer caso você entrasse em trabalho de parto."

Na hora eu me senti enganada. Uma idiota. Mas naquele momento minha preocupação era a pequena, que estava longe de mim, cheia de fios, com sonda e em meio à inúmeros barulhos da UTI. 

Demorou mais de um ano para eu começar a perceber que talvez o médico tenha se aproveitado da minha fragilidade momentânea para me "vender" a ideia de maior segurança da cesárea. Mãe de primeira viagem, eu achava de que havia escolhido um bom médico, confiava em todo o conhecimento técnico que ele possuía. Então, por que não acreditar nas informações que ele estava me passando??

Agora, quando fiquei grávida, acabei procurando ele para a primeira consulta. Respirei fundo e falei sobre minha vontade em fazer um parto normal dessa vez. Ele, em toda sua calma, me disse que não tinha mais disponibilidade (você sabe o que é isso, né?) de fazer partos normais. Pegou o calendário e me disse a data do parto - assim eu já podia aprontar tudo com bastante antecedência. Saí do consultório consumida por um ódio mortal. Juro. A ferida invisível voltou a arder e eu jurei que não queria ser tratada daquela maneira. E saí em busca de um novo médico.

Eu realmente acho que eu o encontrei dessa vez. Concorda com meu ponto de vista e, embora eu saiba que minhas possibilidades de ter um parto normal numa gravidez gemelar seja muito mais difícil, ele já me acalmou: se os bebês estiverem bem, entro em trabalho de parto. E só depois, se precisar, seguiremos para a cesárea. 


Embora eu ainda me sinta uma idiota por ter permitido uma violência dessas contra mim e contra minha filha, eu acho que consegui tirar uma lição importante e gostaria de passar para todas as mulheres que passam por aqui e correm o risco de viver tudo isso: questione. Muitas vezes. procure outras pacientes. Fale com o máximo de pessoas que conseguir. Ouça relatos. FALE quando algo te incomodar. E só continue com o médico caso esteja realmente segura com ele - mesmo se sua opção for por uma cesárea eletiva. Porque amigas, uma cicatriz na base da barriga não é nada perto da marca que eu trago no coração. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Bela adormecida

Vocês não sabem, mas a Bela adormecida sempre sofreu de insônia. Sempre. A não ser pelo episódio que a deixou famosa (tudo culpa do primeiro trimestre da primeira gravidez), era deitar a cabecinha pequena no travesseiro que ficava a pensar em todas as mil e uma coisas que tinha de fazer no dia seguinte. Claro, depois que se casou com o príncipe, sua vida ficou ainda mais intensa! 

Antes, ela tinha comida e roupa lavada. Nunca tinha dado valor a esta equação tão banal. Não conseguia enxergar a maravilha da pia vazia, da cama cheirosa e arrumada, da comida feita e posta a mesa - coisa de fada madrinha.   Agora, tudo isso e mais um pouco estava sob sua responsabilidade. E, sim: Bela adormecida é uma mulher moderna e trabalha fora. 

Aí, certo dia, o casal descobriu que a nossa Bela estava grávida novamente. De dois. E maldição do sono voltou. Só que dessa vez mais forte, mais intensa, mais avassaladora. Basta o relógio dar 9 badaladas que nossa Bela Adormecida cai automaticamente, roncando e babando. E não há nada, nem ninguém, que a faça acordar antes das 3h (horário em que levanta para fazer o xixizinho da madrugada). 

Não, caras amigas. Não tenham inveja. Quem chega na casa da nossa querida Bela consegue perceber os infortúnios dessa maldição: basta observar a tralha que se acumula na mesa da sala, no sofá, nos cantos da casa, nos armários, nas janelas, nos 3 potes de feijão podre que estão há mais de mês na geladeira e ela não tem coragem/disposição/energia para jogar fora.